terça-feira, 19 de junho de 2012

Fotografia das amizades

 
Uma das melhores coisas que a fotografia me ofereceu não foi o equipamento que tenho. Não foi a câmara, não foram as objetivas, não foi o tripé. A fotografia ofereceu-me algo muito mais valioso, que não se reflete na conta bancária, que não muda de mês para mês.

A fotografia ofereceu-me muitas coisas que não são contabilizáveis, nem em euros, nem em megapixéis, nem em distâncias focais. Ofereceu-me a possibilidade de ver o mundo de outra forma. Ofereceu-me momentos de prazer e paz de espírito. Mas, sem querer, ofereceu-me algo que há alguns anos, quando me comecei a interessar, mais a sério, por fotografia, não podia imaginar. Ou melhor, nunca pensei muito no assunto porque, pura e simplesmente, não tenho a capacidade de adivinhar o futuro. E ainda bem...

Afinal o que me ofereceu a fotografia?

Ofereceu-me algo inesperado. Mas que prezo bastante. Novos amigos!

Sim, amigos, daqueles em carne e osso, que falam connosco, com quem partilhamos histórias e que, só por acaso – ou talvez não, não sei – também gostam de fotografia.

E, talvez em igual número, novos conhecidos. Que ainda não são amigos chegados, mas a quem trato por tu, a quem posso ligar e conversar um pouco como se os conhecesse há anos. Talvez a distância não permita uma maior aproximação, mas sei que se precisar deles estarão lá para me ouvir, ou ajudar se for o caso. E o inverso aplica-se na mesma proporção.

Há momentos em que gosto de ir fotografar sozinho. Sei que isto acontece com a quase maioria das pessoas que se interessa (ou começa a interessar) por fotografia. Principalmente quando estamos à vontade com as questões mais técnicas. Há momentos que queremos só para nós.

Mas também gosto que partilhar momentos fotográficos com a e na companhia de amigos. Faz bem trocar experiências, ideias, histórias e estórias. Também é assim que podemos fazer evoluir a nossa fotografia. Entre amigos ensina-se e aprende-se muito. O que é bom.

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Nas fotos, os amigos João e Nuno Rodrigues num final de dia dedicado à fotografia. E à conversa. E a um jantar muito para lá da hora.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A importância da hora

Há poucas pessoas que me percebem. Algumas outras, minoria, conseguem entender-me. Quando digo que gosto de me levantar bem cedo – e quando digo cedo, é mesmo cedo -, as que não me percebem ficam a olhar de lado, ou com ar pensativo. Apostava já um jantar em como lhes passa peça cabeça que não devo bater bem da bola. Talvez não bata, mas agora acho que já é tarde para mudar...

Por outro lado, já tentei (re)programar o cérebro para conseguir fotografar a outras horas do dia. Aqui e ali lá vou tentando. Principalmente quando estou longe de casa e tenho que aproveitar todo o tempo para ir registando o que vejo. Acabo, invariavelmente, por ficar com menos imagens das que devia. Acabo, invariavelmente, a lutar comigo próprio para fotografar. E quando não o faço levo com o humor quase negro da minha cara metade. Com razão.

Acontece que gosto de ter a luz ideal. Mas, para ser correcto, em fotografia não existe a luz ideal. Tudo depende do resultado que se queira. Tudo depende da disponibilidade. Depende de muita coisa.

Mas, mesmo com isto em mente, continuo a gostar de fotografar em determinadas alturas do dia. O nascer e o fim do dia são, para mim, o momento de êxtase. Não há nada a fazer.

Numas curtas férias que acabei por ter em Maio decidi, com a conivência e paciência da família, abordar esta temática de uma forma mais ou menos prática. O que, estando num local que não conhecia, tornava o “desafio” ainda mais apetecível, mas também complicado.

Férias, família e fotografia por norma não rimam bem, principalmente se quisermos obter os melhores resultados possíveis. Por sorte, fui bafejado por uma família que lá vai aturando as minhas taras e manias.

Ficam três exemplos da razão porque gosto (mais) de fotografar nos limites do dia.


Miradouro de S. João das Arribas

O sol já vai alto. Não há nuvens no céu. Está calor. Aliás, muito calor. A vista é espetacular. O rio Douro, lá em baixo, parte a terra, dividindo-a em dois países. De um lado nós, do outro nuestros hermanos. A paisagem é belíssima.

Carrego a mochila com o equipamento fotográfico, mas ainda hesito em tirá-lo. Não faz sentido nem posso ser assim tão exigente. Isto é o que penso para me mentalizar . Independentemente das condições da luz, devo guardar o que estou a ver. A partir desse momento, liberto-me um pouco e vou enchendo o cartão de memória com algumas fotografias e pequenos vídeos.

Não preciso de filtros. Ou melhor, o único de que não dispenso no momento é o polarizador. Para onde quer que me vire, para onde quer que aponte, o que quer que foque, obtenho velocidades suficientes para não precisar do tripé.

Mas, com um cenário destes, arranjei forma de regressar antes do sol surgir no horizonte, o que me obrigou a levantar bem cedinho da cama no dia seguinte.

Felizmente para alguns, mas infelizmente para mim, não há sinais de nuvens. O céu está limpinho a luz ainda é pouca. Está frio. Aliás, está uma brisa bem fresca que me obriga a vestir o blusão. Máquina colocada no tripé, filtros a postos para entrarem em ação. Tal como eu.

E lá estou eu, sozinho, no miradouro de S. João das Arribas, com a objetiva apontada para o Douro. O topo das arribas começa a ser inundado de luz e de cor. A paisagem, agora, mesmo sendo a mesma que vi no dia anterior, parece diferente, ainda mais bonita. A vegetação ganha um colorido mais agradável. Aqui está a vantagem de fotografar com luz menos dura.

Apenas o contraste entre o céu e a terra necessita de ajuda para ser equilibrado. Para isso recorro a um filtro ND Gradiente 0.6 hard. Chega e sobra para manter a informação e não se notar no resultado final.



Fraga do Puio

Engraçado como, sem querer, “descobrimos” alguns locais, quando estamos à procura de outros. Parece um passatempo mas, no caso, não. Picote foi-me aconselhado mas para ver uma albufeira, ou barragem, ou algo parecido e que era algo de muito grande (?!). Ainda hoje acho que devo ter percebido mal, porque não encontrei nada do género.

De qualquer modo, chegado a Picote, uma das várias freguesias de Mirando do Douro e que se situa mesmo no alto das Arribas do Douro e integrada no Parque Natural do Douro Internacional, paro o carro e pergunto se me sabem indicar o “tal” local. Pela expressão da simpática senhora, sinto-me um Indiana Jones em busca de algum tesouro escondido. Do que pergunto nada sabe, mas propõe que vejamos (eu e família, claro) o miradouro da Fraga do Puio, uns metros mais à frente de onde tinha estacionado o carro.

Desconfiado, mas ao mesmo tempo intrigado, avanço então uns duzentos metros por terra batida. A pé, porque o carro (já) estava à sombra. Cheguei e disse: “FABULOSO!”. Do miradouro temos uma vista de cortar a respiração.

Mas já é meio-dia, o sol e calor apertam e, mais uma vez, a luz não é a ideal para fotografar. Pelo menos para mim. As nuvens, mais uma vez, estão de folga. Mas tenho que fotografar a família e, já que ali estou, a paisagem.

Chega mais um casal. Máquina fotográfica a tiracolo e a mesma expressão de espanto ao chegarem ao local. É impossível não reagir a tamanha beleza e eu não conseguia deixar de pensar que a tinha que registar num outro momento do dia. Era quase imperativo.

Inevitável foi também a troca de olhares para o equipamento que cada um tinha em seu poder. Disse inevitável porque não acredito que quem fotografe, ou goste de fotografia e tenha uma máquina, não sinta curiosidade em saber o que leva o seu “adversário”. Não quer dizer absolutamente nada, mas a tentação de ver se a minha é maior do que a tua faz parte do ser humano e, no caso específico, do ser fotógrafo. Adiante...

Comento com a minha mulher que, embora já tenha algumas imagens, não são as melhores, por causa da luz. Lá está, novamente a luz. E eis que alguém fala a mesma língua que eu. Do outro casal, o homem, concorda comigo. Que a luz não é a ideal. Finalmente um companheiro, alguém que me percebia.

Mais uma vez não preciso de tripé, nem filtros. Tenho luz que chega e sobra. Nem precisava de tanto. O que tenho a mais de luz trocava de boa vontade por algumas nuvens. Mas Ele, lá em cima, não está para me aturar.

Faço o melhor que posso e aviso a família que com ela, ou sem ela, com nuvens, ou sem nuvens, ao final do dia lá estarei novamente.

E, horas depois, lá estamos nós, de volta ao topo do mundo – pelo menos do que eu consigo vislumbrar -, ao topo da Fraga do Puio. Pouco passa das sete da tarde e até o sol se pôr ainda falta muito tempo. Muito, mesmo. Mais do que uma hora. Aproveitamos para fazer um mini-piquenique e aproveitar as vistas. Só lá estamos nós. E uns pássaros. E uns insectos. Enfim, nós e a natureza.

Quase uma hora depois noto que as minhas companheiras já começam a ficar impacientes. Ou então sou eu que me estou a colocar no lugar delas. Sinto necessidade de acelerar, mesmo que a luz ainda não esteja bem a gosto, ou no ponto.

Máquina no tripé, medição feita e preciso de um filtro gradiente. Grande parte das arribas começa a ficar à sombra e existe muito contraste com o céu que, feliz e finalmente, me ofereceu algumas nuvens. Entra em ação um ND Grad 0.9 Hard, já que tenho um horizonte bem certinho. Verifico mais uma vez a exposição, ISO no mínimo, carrego no botão do comando disparador e guardo o momento.

Analiso o histograma e verifico que está bem, ligeiramente chegado à direita, como habitualmente gosto de o ter. Comparando com a imagem, quase idêntica, que fiz por volta do meio dia, não tem nada a ver. É caso para dizer que se é verdade que não existe luz ideal, a importância da hora é fundamental. Pelo menos para mim...


A cabana do Francisco

Depois de sair da Fraga do Puio, em direção a Mirando do Douro, para almoçar, cruzo-me com uma cabana num descampado. Era a cabana e mais nada.

Ligar aquela cabana às que vemos em filmes americanos foi um passo. Não faço ideia quem seja o Francisco, mas gabei-lhe a cabana. Não por ser nova, ou cómoda, mas por ser, digamos, diferente (?). Uma janela, escadas de acesso e um alpendre. Tudo em madeira. E inclinada. Não sei de defeito, ou feitio. Só sei que ali tinha um bom motivo para fotografar. Mas, mais uma vez, a hora não era a melhor. Sim, estou a tornar-me repetitivo e aborrecido (ou chato, como preferirem).

Como já tinha planeado voltar àquelas bandas ao final da tarde para revisitar a Fraga do Puio (ver atrás), não podia deixar de fazer o mesmo à cabana do Francisco. Assim, depois de guardar mentalmente algumas possíveis composições, segui viagem na esperança de ter um final de dia produtivo.

E assim foi, depois de alguma fotos da Fraga do Puio, tento aproveitar os últimos raios de cor que pintam o céu com ajuda das poucas nuvens existentes. Poucas, mas que contribuíram de alguma forma para o resultado final.

Desfruto de cada momento, da paisagem que tenho à minha frente. Mesmo recorrendo a um filtro gradiente de passagem dura 0.9 (3 stops) consigo que não seja notado no resultado final. A cabana do Francisco, ao ultrapassar o horizonte, era um problema, que acabou por não ser. Quando bem utilizados, os filtros gradientes, mesmo os passagem dura (ou hard) são bastante perdulários.

A luz pode, ou não, ser a ideal, mas a hora a que fotografamos é fundamental para conseguirmos melhores resultados ou, pelo menos, diferentes. Aqui, o que à hora de almoço era um espaço seco, sem vida, demasiado amarelo, ganhou outra vida ao final do dia, parecendo muito mais verdejante do que foi a outra hora.

Agora, que vejo esta fotografia da cabana do Francisco, ao final do dia, no ambiente de trabalho do meu computador, em tamanho grande com todos os pormenores bem visíveis, concluo que tenho "a" fotografia das férias. Que cheguei mesmo na hora H!


Nota curiosa, ou nem por isso: Já pesquisei na Internet à procura desta cabana, se existia alguma referência, vídeo, ou fotografia. E não encontrei nada. Não acredito que tenha sido o único a dar-lhe oportunidade de brilhar. Se souberem, ou descobrirem algo sobre a mesma, digam alguma coisa.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O mesmo espaço, várias realidades




O final de dia prometia. Como têm prometido os primeiros dias de Maio. As nuvens enchem o céu e chamam por quem gosta de fotografia. Mas não em voz baixa. Gritam para que estejamos lá. Obedeço. Que mais posso fazer?

Tinha outro local como destino, mas precisava de revisitar um espaço ao qual fui há pouco tempo. Necessitava de umas imagens suplementares para um trabalho. Perdi minutos extra que me obrigaram a repensar a ida para qualquer outro sítio. Tomei a decisão que, no momento, me parecia mais correta. Aguardar ali mesmo o pôr do sol.

Mas estava inquieto. Não vislumbrava algo que me chamasse à atenção. O sítio, de certa forma familiar, estava a turvar-me a vista. Precisava de descontrair, de me ligar ao espaço, à luz, à fotografia e esquecer tudo o que me tingia o pensamento. Mas quem disse que este hobby, ou profissão, é fácil?

Eis que sou trespassado por uma imagem de algo com que me cruzei pouco tempo antes. Um trator adaptado, ou apropriado, para trabalhar campos de arroz. Dentro de água poderia oferecer um bom motivo para fotografar. E ali estava ele, dentro de água, ou quase. E o sol pousaria a cerca de 90º dele. A luz quente, lateral, poderia oferecer mais do que aquilo que eu tinha pedido.

Já tinha o motivo, só ainda não tinha a luz. O que fazer? Esperar. Foi o que fiz durante alguns minutos. E esta espera pode muito bem servir para avaliarmos composições, para alinhavarmos ideias, para percebermos como a luz e ambiente se transformam. Isto é tão importante, ou talvez mais, do que o ato de premir o botão de disparo da máquina.

E esta aguardava, pacientemente, em cima do tripé. A brisa é fresca, mas agradável. Ouço outros tratores. Ouço aves. Consigo finalmente estar ligado ao espaço que me rodeia.

O sol começa a ficar baixo e a luz torna-se suave, bonita, quente. Expande-se pelo céu, ilumina nuvens e reflete-se na terra, em tudo o que encontra pelo caminho. A luz por que todos aguardamos, de que todos gostamos. Como aproveitá-la?

Com a máquina no tripé, medição feita, filtros polarizador e ND Grad no sítio, cabo disparador pronto para a ação. O trator começa a ser pintado, lateralmente, pelo tom laranja. As nuvens enchem-se de cor. Guardo o momento. Adoro o barulho do obturador. Lindo. Que mais posso fazer?

A brisa faz a água e nuvens deslocarem-se suavemente. Uma longa exposição pode dar um ar completamente diferente ao cenário. Verifico novamente os valores da exposição. Vou ser radical e usar o Lee Big Stopper, filtro que como é sabido corta 10 stops de luz. O tempo que vou estar a registar o momento vai para lá dos cinco minutos. Seis, para ser mais preciso. Apenas precisaria de uns quatro minutos, mas a luz está a perder força, o que me obriga a prolongar a exposição. E seis pareceu-me que seria suficiente.

Foram longos minutos, mas valeu a pena. Verifiquei o histograma e ali estava ele, certinho. As nuvens perderem volume a arrastaram-se num bailado pelo céu. As natureza como nunca a veríamos só com os nossos olhos. A natureza transformada por um filtro, um simples filtro...



O sol esconde-se, a brisa acalma e em frente a mim tenho um espelho autêntico. Ou quase. Todo este espetáculo acontece e, tenho a certeza, poucas pessoas usufruem do mesmo. E é algo por que não temos de pagar, é de graça. É nestes momentos que lamento pelas pessoas que não veem mesmo vendo. Que não sabem, e provavelmente nunca vão saber, o que perdem, ou o que perderam. Quem se interessa por fotografia, principalmente a de paisagem, aprende a olhar o mundo de outra forma, com mais atenção, com mais respeito, com interesse redobrado. Como é bom estar aqui, envolto neste fenómeno que a mãe natureza me oferece. E por poder guardá-lo, quem sabe para sempre.

Para onde quer que olhe sinto que podia fazer uma excelente imagem. Mas é preciso cuidado com esta suposta facilidade. Encho o meu cartão com mais uma ou outra fotografia e em breve estarei a descarregá-lo para o computador. Tenho a certeza de ter conseguido algumas fotografias interessantes.

A edição tornou-se fácil. Não gosto de perder muito tempo com cada imagem. Ou sai logo mais ou menos bem do cartão, ou passo à frente. No Lightroom limpei uma ou outra sujidade, acertei ligeiramente o balanço de brancos (nem em todas foi necessário), um toque de saturação (pouco para não enjoar, já que a natureza a esta hora me ofereceu cores fortes), contraste através do gráfico de níveis, porque é mais eficiente do que a opção pura de contraste e ajuste do sharp. Cataloguei e arquivei. Por hoje está. Que chegue amanhã, ou depois, ou quando se proporcionar.

Como é bom fotografar...


terça-feira, 24 de abril de 2012

Libertar as fotografias



Aviso já que este texto pode tornar-se aborrecido, em parte ou no seu todo. Depois não digam que não avisei. Ok, tem coragem para continuar a ler? Boa sorte.

Às vezes tenho pena das minhas fotografias. Não são excelentes, mas também não são tão más ao ponto de ter pena delas. Às vezes...

Vou reformular. Tenho pena de algumas delas. Como tinha dos (poucos) pássaros que tive em miúdo. Sempre fechados, com tanto mundo por conhecer.

E assim acontece com algumas das imagens que registo com a minha máquina fotográfica. Depois de copiadas do cartão de memória para o computador, passam pela edição e depois ficam enclausuradas num qualquer canto do disco. Parte do prazer de fotografar fica também ali, guardado, prisioneiro.

Esta talvez seja a grande diferença entre o tempo do analógico e do digital. As máquinas evoluíram, são capazes de coisas extraordinárias e toda a gente anda com uma ao pescoço, ou no bolso. Mas, agora, a maior parte das fotografias passam a um amontoado de zeros e uns, de bits e bytes. Que pena.

Mesmo que ao longo dos últimos anos tenha mandado imprimir algumas fotografias, em papel avulso, em álbuns, ou livros, com destino para mim, ou para oferecer, continuo a sentir-me mais como um guarda-prisional do que fotógrafo.

Sempre que posso vou tentando mostrar algumas ao mundo, nem que seja o virtual. Talvez sirva apenas como terapia. Mas é melhor do que nada e sei bem que os há ainda pior, que registam e guardam para si tudo o que sai do cartão da câmara, numa espécie de prisão perpétua para as fotografias que tiram.

Mas nada substitui o prazer de ver uma foto livre, impressa. De preferência bem impressa. E, preferencialmente, muitas, para o prazer durar tanto como comer um Magnum. Ou parecido...

Com tudo isto em mente resolvi fazer uma cópia de segurança a um pequeno número de fotos que tenho. Sei que devia fazer a todas, mas a capacidade do disco que usei é limitada. Ou antes, fui eu que a limitei propositadamente. Ao ficar com outras tantas fotos por arquivar, estou simplesmente a prolongar o prazer de as rever e de as enviar para novo disco.

Mas, afinal, este tipo fala em impressão e em libertar as imagens do disco e depois fala em cópias de segurança em discos de capacidade limitada?! - pensarão alguns.

Foi apenas uma pequena brincadeira, só para confundir mais um pouco e para tornar este texto ainda maior e mais aborrecido. Eu avisei...

Com tudo o que anteriormente referi em mente, resolvi imprimir um pequeno número de fotos que tenho, que fui fazendo nos últimos anos. Queria voltar a ter o prazer de ver as minhas imagens em algo que não tivesse que ligar à corrente, ou carregar a bateria. Queria sentir a textura, ver os pormenores e poder mostrar aos amigos.

Com isto em mente, resolvi imprimir algumas das minhas fotografias num livro. Em papel. Daqueles que se abrem com as mãos. Que pesam nas mesmas. Que têm cheiro. Que fazem som ao folhearmos. Que se descolam, que se sujam, que se dobram.

Agora vou começar a minha cruzada e tentar libertar aos poucos mais e mais fotos que gritam de dentro dos discos onde estão aprisionadas. Quero encher a minha casa com fotografias. Ou encher a casa de familiares. Ou de amigos. Ou passá-las para livro.

Bem, tudo isto para vos dizer que aqui está ele, um dos últimos livros que imprimi no serviço Blurb (www.blurb.com), um dos melhores do género. Não é caro, tem qualidade, é rápido. E ficou bonito. Pelo menos para mim que, afinal, é o que (ou a quem) interessa.

Assim livres, estas minhas fotografias podem ser admiradas quando eu bem entender. Posso viajar no tempo até ao tempo em que as fiz. Posso reviver cada momento, cada pôr do sol, cada luz, cada amanhecer. Se continuassem guardadas no disco, o mais provável era nunca mais me cruzar com algumas delas, de me lembrar que existem. O que era uma pena...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A minha primeira máquina digital



Foi a loucura total. Foi a loucura quando um amigo, que trabalhava na então Singer, me telefonou a dizer que a minha encomenda tinha chegado. Estávamos em Fevereiro de 1999 e acabava de gastar 212 contos(!) numa máquina digital, uma Sony Mavica FD-91.

Ou seja, foram várias loucuras ao mesmo tempo...

Lembro-me que não descansei enquanto não a fui levantar. Saí do trabalho quase sem tocar os pés no chão. O carro parecia que tinha começado a andar de marcha-atrás, tal o tempo que levei a chegar à loja. Depois vi a caixa e foi muita emoção junta.

Não acredito que hajam muitas pessoas, hoje, que fiquem indiferentes quando compram algo novo, principalmente quando falamos de tecnologia.

Imagine-se em 1999 - não está assim tão longe, mas parece que foi há uma eternidade -, quando as máquinas fotográficas digitais começaram a fazer parte dos sonhos de muita gente. Eu incluído, claro.

Na altura, os profissionais da fotografia ainda não podiam olhar para uma digital como ferramenta de trabalho. Eram muito limitadas e ainda pouco evoluídas.

Eu não era profissional da fotografia, mas precisava de uma máquina que me permitisse alguma flexibilidade para um projeto que estava a desenvolver. E este foi a desculpa perfeita para ter o último grito da tecnologia. No caso, um dos primeiros gritos...

Depois de semanas a avaliar duas ou três máquinas em questão, achei que a Sony Mavica FD-91 tinha muito estilo. Está bem, era quadradona, mas na altura não havia nada no digital que em aspecto rivalizasse com uma máquina profissional. A não ser, claro está, a Mavica.

Esta foi a razão n.º 1. Depois foi o facto de gravar as imagens em... tcham, tcham, tcham...

DISQUETES!!

Era a loucura total, outra vez!!

As drives de disquetes estavam presentes em todos os computadores, as disquetes vendiam-se em tudo o que era loja e lojinha e eram polivalentes. Formatava-se e estavam prontas para nova carrada de fotografias. Embora carradas seja um pouco exagerado. Como um pescador que pescou um peixe deste tamanho... estão a ver?!

Mas a minha Mavica FD-91 tinha outros atributos que, para mim, na altura, se sobrepunham aos defeitos. Tinha 'steady shot', o que era excelente quando fazia zoom. Ou seja, tinha objetiva estabilizada. Era o IS, VR, OS e afins dos dias de hoje.
Dava para definir o balanço de brancos. Limitado, mas dava. Permitia focagem manual e para compensar a exposição. Limitado, mas dava. Tinha flash incorporado e permitia fazer leitura com 'spot meter'. Limitado, mas funcionava. E permitia gravar vídeos. Limitadíssimos, mas dava. E, claro, dava para fotografar. Limitada, mas deu para muitos anos ainda.

Mas o mais espetacular era o ecrã rotativo. Quando me queria exibir, bastava colocar-me numa posição mais acrobática, rodar o ecrã, e disparar. As pessoas ficavam fascinadas. Era a loucura total.

Hoje referimo-nos a este género de ecrã como sendo algo do outro mundo. Pois bem, a minha Mavica, velhinha, de 1999, já tinha um. Embrulhem!

Depois era a própria máquina que chamava à atenção. Era imponente, tinha muitos botões e tinha um ar... profissional. Onde quer que eu estivesse, se levasse a máquina era o centro das atenções. A máquina, claro, que eu passava a ser apenas o tipo que a transportava.

Foram anos felizes com a minha Mavica. Foi comigo para lua de mel e fez furor. Mais uma vez. Ainda hoje me rio das mais diversas situações que com ela passei.

Emprestei-a a familiares durante alguns anos, até que ma devolveram. Estava num saco, encostada num armário, sem qualquer serventia. Ainda bem que ma devolveram. Nunca me esqueci dela e, mais uma vez, foi a loucura total revê-la.

Com pouca esperança coloquei a carregar a bateria. Junto a ela estavam algumas disquetes. A bateria carregou. Boa!

Liguei e máquina e... funcionou!!! Foi mais uma loucura. Não com a mesma emoção da primeira vez - a primeira é sempre única -, mas ali estava ela, viva e a funcionar.

Lamentavelmente só o ecrã LCD é que não dá sinais. Funciona o óculo, mas não é a mesma coisa. Já não poderei tirar fotografias acrobáticas. Mas também as minhas costas já não são o que eram em 1999.

E, quando hoje se fala e escreve tanto sobre os megapixéis das mais recentes máquinas, querem saber a real capacidade do sensor (minúsculo) desta minha primeira máquina digital?

Uns impressionantes... 0.7 megapixéis. Sim, "impressionantes"! A minha Canon 5D MK II só tem mais uns vinte e tais megapixéis. Mas na altura, em 1999, foi uma loucura. Pelo menos para mim...

Hoje serve para mostrar a amigos. Para viajar no tempo e para escrever textos patetas como este. Mas foi a minha primeira máquina digital. E, como todos sabemos, a primeira nunca ninguém esquece!

Já agora, aqui fica link para o dpreview, onde podem ler a análise feita na altura à Sony Mavica FD-91.

segunda-feira, 5 de março de 2012

As nuvens de volta

 
Lá fora o céu encontra-se coberto de nuvens. Daquelas que todos os fotógrafos, principalmente os de paisagem, gostam. Estar em frente ao computador e olhar pela janela com condições destas torna-se doloroso e a ansiedade apodera-se de mim. O dia de trabalho termina mais cedo. Está adiantado e neste momento continuar a olhar para o ecrã já não tem qualquer efeito produtivo. Shutdown.

Mas para onde ir agora? Devia ter pensado nisto mais cedo, mas já é tarde para este tipo de análise. O melhor a fazer é tentar (re)visitar algum local que já conheça e possa ainda não ter explorado convenientemente. No carro, a caminho, logo decidirei para onde ir...

Como ainda tenho uns largos minutos até ao pôr do sol, volto a um local conhecido, mas não totalmente explorado. Cais de canoagem da Figueira da Foz, novamente, mas desta vez com uma luz diferente das visitas anteriores. E com nuvens.

É curioso como se conseguem descobrir novos motivos para fotografar, mesmo em locais que conhecemos, que nem sequer tínhamos reparado anteriormente. Logo à entrada deparo-me com um cenário que pode dar uma boa composição. A luz está baixa e agradável. Encosto o carro e preparo o material fotográfico.

Na máquina levo encaixada a objetiva mais angular que tenho, a Canon 17-40mm. Muitos queixam-se da sua qualidade, ou da falta de parte dela. Eu adoro-a. Ainda não consegui perceber muito bem porque se lamentam algumas pessoas. Talvez seja eu que não perceba muito disto. É uma forte possibilidade.

À minha frente tenho imenso verde, uma flor de pé alto de tom alaranjado, água e nuvens. Todos os ingredientes que preciso para tentar cozinhar alguma coisa de jeito. O sol está a desaparecer no meu lado direito, a posição ideal para tirar partido do filtro polarizador. Com ele vou poder saturar um pouco as cores, aumentar o contraste no céu e controlar o reflexo na água. Preciso também de um ND 0.6 Gradiente, por forma a reter mais informação do céu, ou seja, de equilibrar a exposição em toda a imagem.

Registo o momento e gosto do resultado. As cores, a luz lateral, as nuvens no céu, tudo conjugado mais parece um quadro. Nem a brisa, já um pouco fresca, que corre me perturba. Neste momento estou concentrado e quero aproveitar ao máximo o tempero deixado por S. Pedro. Depois de vários dias sem nuvens, oferece esta prenda.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Olhar de 5 anos


Embora o que nos rodeia seja igual para todos, o certo é que cada um de nós tem uma visão própria do mundo. Eu posso dar valor a determinada coisa e a pessoa ao meu lado a outra completamente diferente. Eu posso dar mais importância a uma flor e outra pessoa, no mesmo contexto, pode sentir-se deliciada com o inseto que vive ou se alimenta da mesma.

Se numa praça cheia de gente entregássemos uma máquina fotográfica a todos, certamente ficaríamos surpreendidos com os resultados que apresentassem. Cada pessoa entregaria o seu olhar, aquilo que mais lhe chamou à atenção.

Com estas e outras ideias em mente, há dias, quase sem querer, levei a cabo a "experiência" que andava a pensar fazer há algum tempo.

Convidei a minha filha a ir fotografar comigo. Não só poderia usufruir da sua companhia (e ela da minha), como teria a ocasião perfeita para ver no que a minha experiência resultaria.

Ela, como todas as crianças, gosta de imitar o que fazemos. Logo, convidá-la para algo que ela me vê fazer com frequência só poderia ter sucesso na resposta.

Emprestei-lhe uma Canon 400D com a objetiva do kit, 18-55mm (cortesia do meu irmão que me emprestou a mesma para outros objetivos). Para o que pretendia chegava e sobrava. Nem seria preciso tanto, mas era o que tinha à mão...

A ideia inicial era colocar a máquina totalmente automática. Mas, no caso e à hora a que me propus fotografar, já relativamente tarde, o flash entrava sempre em ação. Passei pelo modo 'P', mas arrisquei (embora de forma calculada) a Prioridade à abertura.

Entreguei-lhe a máquina e disse-lhe que podia fotografar o que quisesse e da forma que desejasse. Eu não iria fazer nada, nem sequer dar sugestões. A única coisa que fui controlando (embora nem sempre fácil) foi a velocidade, já que a luz, ao final do dia, desaparece muito rápido.

Ainda apanhámos o pôr do sol e acabámos o dia, ou iniciámos a noite, junto a umas ovelhas, que eu aproveitei também para fotografar e que depois deixo aqui o resultado.

Por esta altura já ela tinha uns quantos registos. Mas, depois, não só não tinha objetiva/máquina para o escuro que já estava, como se fartou de tantos minutos a fotografar e porque queria "conhecer" melhor as ovelhas.

Guardei a máquina e a curiosidade apoderou-se de mim. Enquanto não descarregasse as fotografias para o computador não teria descanso.

Ao longo desta aventura/experiência fui fotografando a minha filha em ação. E, curiosamente, adotou algumas posições, corretas, para fotografar, que não costumo usar. Ou seja, não me imitou, seguiu o seu próprio instinto. Fiquei agradavelmente surpreendido...

Finalmente, quando abri as imagens no computador, outra surpresa. Positiva. Aliás, muito positiva.

A minha filha tem cinco anos. Nunca lhe expliquei nada de fotografia. Somente seguiu o seu olhar. Aquilo que a atraía. E, mesmo assim, conseguiu algumas imagens interessantes.

Sim, também tinha lá umas quantas tremidas, outras muito tremidas, outras tortas. Não podia pedir mais, mesmo se fossem todas assim.

Só que, no geral, estavam com enquadramentos e composições mais ou menos equilibradas. Com algum sentido estético. Contudo, não vou colocar aqui todas as imagens que saíram bem da máquina, mas decidi que duas mereciam ilustrar o que acabei de escrever.

Aqui ficam dois olhares de uma menina com cinco anos. A primeira ilustra uma silhueta ao pôr do sol e a segunda ovelhas. Sim, está tremida - tem lá uma ou outra que não estão -, mas acabei por selecionar esta porque a acho diferente e que não fica atrás de tantas outras imagens que se veem por essa Internet fora e que até merecem algum tipo de destaque, ou prémio.

Sorte? Sim, também pode ter havido. Mas, de qualquer forma, estes olhares são de uma criança e ver, olhar com sentido estético, é algo que se pode treinar, mas também nascer connosco. Será que é o caso? Não sei, mas como todo o pai babado, espero que sim...